“A ética não é cosmética”

Mario Sérgio Cortella diz que nosso futuro depende da maneira como trataremos a questão ética – dentro e fora das empresas

Empresa;Entrevista;Ética;Mario Sérgio Cortella;O filósofo entre seus livros:  citações à Bíblia para falar do juiz Moro (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)Entre tantos assuntos sobre os quais o filósofo Mario Sérgio Cortella é capaz de discorrer com propriedade, a ética ocupa lugar de destaque. Na lista dos palestrantes mais requisitados do Brasil, ele conta que tem falado muito sobre o assunto. “Na minha atividade como palestrante, nunca tive tanta demanda em relação à questão ética como nos últimos dois anos.” Não por acaso, o período coincide com o tempo em que a operação Lava Jato está em curso. Desde que o juiz Sérgio Moro descobriu a ponta do novelo de um emaranhado esquema de corrupção em Londrina, no interior do Paraná, ética virou assunto obrigatório especialmente dentro das empresas. Cortella comemora. “Ética não é cosmética, não pode ser uma coisa de fachada. Uma nação que deseje ter uma economia poderosa não pode apodrecer a estrutura ética.” Ainda que os problemas sejam muitos e que 2016 esteja se mostrando um ano difícil, de complicação econômica e turbulência política, o professor o classifica como “absolutamente magistral na nossa condição histórica”. E completa: “Eu jamais imaginei que uma nação que tem 516 anos fosse encontrar, numa democracia tão jovem, um momento tão bom de trazer à tona tudo aquilo que estava no subterrâneo. Nós estamos tomando um susto por dia, mas ganhamos a possibilidade não de lavar a roupa suja, mas de ter a roupa limpa como nossa referência”.

Época NEGÓCIOS  Com todos esses escândalos de corrupção, fazer uma parceria ou prestar um serviço para o setor público deixou de ser um bom negócio para as empresas?
Mario Sergio Cortella
  A questão ética no mundo dos negócios não está ligada exclusivamente à intersecção com o setor público. A ética não é cosmética. Ética não é uma coisa de fachada. A questão ética é uma questão nacional para proteger nosso futuro. O governo é um pedaço disso, a sociedade empresarial é outro. Eu não posso ter uma empresa que diga: “Nós somos socialmente sustentáveis, somos ambientalmente responsáveis, nossas motosserras são feitas de material reciclável”. Isso é cínico. Certa vez, num debate, um empresário levantou a mão e me fez uma pergunta óbvia: “O senhor não acha que a gente deveria começar essa formação ética nas escolas, com as crianças?”. Eu disse: sem dúvida, mas tem uma providência prévia: parem de corromper. Não existe corrupção sem corruptor. Como a corrupção é feita com dinheiro e o dinheiro vem do setor empresarial, basta vocês pararem de corromper e a gente pode dar conta nas escolas, nas próximas duas gerações. Essa suposição de que a corrupção está ligada ao setor público é parcial. Aliás, ela nos prejudica. Todas as vezes que uma empresa assume que a corrupção é algo presente no conjunto da nossa vida social ela dá passos significativos para que isso não seja um fingimento.

Época NEGÓCIOS  A pressão por resultados alimenta a corrupção?
Cortella 
O lema “Fazemos qualquer negócio” é o mais nojento dos lemas. Há negócios que, embora possam, não devem ser feitos. São aqueles que apodrecem as relações, que extinguem o futuro. Nós não podemos admitir que a palavra lucro retome seu sentido original, pré-Renascença. Lucrum, em latim, significa enganar, da onde vem a palavra logro. Isto é, iludir. A admissão da corrupção leva a ganho imediato, mas leva a uma perda mais adiante. Porque a corrupção não tem término. Quem você compra ficará mais caro na próxima negociação. Quando eu vejo todos os escândalos, de natureza pública e privada, a minha pergunta é: se as operações da Polícia Federal e da Justiça não tivessem descoberto isso, até onde eles iriam? Qual é o limite? Uma pessoa que já juntou R$ 140 milhões e que está com 70 anos de idade, até onde ela vai? Ela vai comer mais do que consegue? Ela vai viajar mais do que o tempo de vida oferece? Ela vai colocar mais ouro no banheiro? Não há limite para quem é corrupto. A obtenção de vantagem ilícita sem nenhum tipo de consequência leva a uma estrada que é só horizonte. Por isso, uma empresa perde imensamente quando admite a corrupção como prática negocial. Ela ganha agora, mas perde com o tempo. A Volkswagen, por exemplo, teve de declarar que forjou os equipamentos. A Siemens teve de fazer um acordo. A Petrobras está rasgada de cima a baixo. Hoje é mais difícil ser desonesto. O ganho é maior, mas é mais difícil.

Há negócios que,
embora possam, não devem ser feitos. São aqueles que apodrecem as relações, extinguem
o futuro das empresas

Época NEGÓCIOS  A informação mais acessível, com a internet e as redes sociais, aumenta os riscos para a reputação das empresas que corrompem?
Cortella
  Com as redes sociais, com a comunicação veloz, com uma democracia, com imprensa livre, com plataformas digitais, a reputação de uma empresa desaba numa velocidade inimaginável há duas décadas. E se a empresa não toma uma providência de imediato, não há mais possibilidade de estorno do prejuízo. Olha só as empresas automobilísticas, o quanto elas se tornaram mais velozes no recall.Não foi por uma consciência social. Quando a farmacêutica Schering-Plough revelou, há mais de 15 anos, que parte do estoque de pílulas anticoncepcionais tinha sido produzido com farinha, nunca mais se recuperou. Isso numa época em que as plataformas digitais ainda não eram tão velozes.

Época NEGÓCIOS  Considerando o grande número de empresas envolvidas em corrupção, onde está o problema? Falta uma lei mais dura ou falta o cumprimento das leis que já existem?
Cortella 
Nós não temos ausência de legislação nessa área.  O que a gente não tem hoje é a capacidade de fazer com que a legislação existente possa ser colocada em prática. O nosso Legislativo se embrenhou tanto na disputa interna que deixou para o Judiciário a tarefa de legislar. Quem vem legislando no Brasil nos últimos dez anos é o Supremo Tribunal Federal. Ele vem discutindo as questões de que o Legislativo devia tratar, no campo inclusive da ética da convivência, como a questão das relações homoafetivas, do aborto ou não de anencéfalos e assim por diante.

Época NEGÓCIOS  O Poder Judiciário está muito politizado?
Cortella
  Não. Eu acho que o Judiciário cumpre uma tarefa que não é obrigatória. Está muito mais ligada à retração dos outros dois poderes, especialmente do Legislativo, do que ao fato de o STF ter tomado como uma obrigação.

Época NEGÓCIOS  O senhor acha que o juiz Sérgio Moro foi antiético ao divulgar os áudios de conversas entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma?
Cortella 
No meu entender, o juiz Moro, em vários momentos, colocou a lei a favor daquilo que a gente quer como decência, e em outras situações eu imagino que ele saiu um pouco do foro dele. Olhando do lado de fora, eu não seria capaz de emitir uma opinião jurídica. Mas olhando como cidadão, eu acho que ele poderia, mas não deveria fazer aquilo [divulgar os áudios]. Porque ele produziu uma comoção social e uma antecipação de juízo. Eu não sei se era legal ou não o que ele fez. O que eu acho é que era inconveniente. O que não anula todo o trabalho louvável que ele vem fazendo.

Época NEGÓCIOS  O senhor acha que foi a polêmica em relação à divulgação das conversas que fez o juiz Sérgio Moro declarar sigilo na lista encontrada na Odebrecht?
Cortella
  Eu acho que foi mera coincidência. Porque há uma divergência entre aquilo que é a detecção de uma conversa ao vivo e uma lista da qual você não tem uma comprovação direta. São duas situações diversas. Nada garante que o que está anotado na lista da Odebrecht seja de fato algo ilícito. Não há comprovação ainda. Eu não acho que ele tomou dois pesos, duas medidas. Estou olhando de fora, insisto, e a primeira atitude em relação a Lula e Dilma eu acho que foi de inconveniência. Se eu quiser lançar mão de um texto bíblico, está lá na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, 6:12, “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Então, do ponto de vista da licitude, eu imagino que o juiz Sérgio Moro, como magistrado, poderia fazer, mas não era conveniente.

Época NEGÓCIOS  E quanto ao processo de impeachment. O fato de ele estar sendo analisado por parlamentares que também são acusados de corrupção não torna o processo antiético?
Cortella
  Nossa legislação permite a possibilidade de impeachment. Todos os nossos ex-presidentes receberam pedidos de impeachment. O que torna o pedido ilegal não é o pedido, é o fundamento, se ele tem no mérito alguma razão ou não. Eu acho que o fato de alguém [um parlamentar membro da comissão] estar envolvido [em denúncias de corrupção] não desmerece o pedido, porque o mérito é que terá de ser avaliado. Eu não posso colocar os parlamentares a priori como culpados. A mesma coisa vale em relação à presidente. Enquanto não tramitar por completo, esse tipo de ação não pode ser admitido.

Época NEGÓCIOS  A defesa do PT é muito baseada em dizer que o impeachment é um golpe. O senhor vê fundamento nessa afirmação?
Cortella 
O ministro Ayres Brito disse: impeachment não é golpe, desde que dentro da tramitação e da lei. Parte do PT reclama que está havendo uma seletividade em relação aos julgamentos. E observamos, por exemplo, que há quase uma imunidade em relação ao presidente da Câmara e a outros parlamentares de outros partidos, como o PSDB. Essa seletividade não pode ser desconhecida. O impeachment só será golpe se, primeiro, for impedido o direito de defesa, e segundo, se o Judiciário não fizer um julgamento isento, caso haja um recurso.

Época NEGÓCIOS  E quanto ao presidente Lula, ele foi antiético ao aceitar ser ministro mesmo sabendo das acusações e investigações contra ele?
Cortella
  Não, porque ele se presume inocente. Se eu, Cortella, me considero inocente em relação a algo, eu vou lançar mão de todas as coisas para me defender. Se ao final desse processo ficar provado que ele não era inocente, o ato anterior que ele praticou vai estar sugerindo uma atitude antiética. Mas a aceitação [do Ministério da Casa Civil], seja para ajudar o governo, seja para criar uma instância de proteção a ele, não pode ser qualificada como desviante.

Época NEGÓCIOS  Mas o fato de haver tantas denúncias não coloca o ex-presidente Lula numa situação complicada para aceitar uma posição de tamanho poder?
Cortella
  Eu imagino que uma pessoa como ele, que tem experiência, conseguiria dar ao governo atual parte dos rumos de que precisa. Você pode dizer que nós precisaríamos de alguém que fosse isento. Bom, se assim fosse, nós precisaríamos ter um outro presidente da Câmara, um outro presidente do Senado, um outro tipo de governador ou prefeito em alguns lugares.

Impeachment só será golpe se, primeiro, for impedido o direito de defesa e, segundo,
se o Judiciário não fizer um julgamento isento, caso haja recurso

Época NEGÓCIOS  Que mudanças o senhor acredita que a vida política do Brasil precisa?
Cortella 
Eu acho que o Brasil precisa de uma nova Constituinte. A nossa Constituição, de 1988, é extremamente avançada, mas ela tem 30 anos. Você pode dizer que a Inglaterra não tem uma Constituição fechada, que os Estados Unidos mantêm os mesmos sete principais artigos desde a proclamação dessa Constituição. A questão é que nós somos um país de outra natureza. Trinta anos é um tempo imenso, especialmente numa nação que é muito jovem. Para a parcela das pessoas que não viveu na ditadura militar, há a percepção de que a democracia é um estorvo. A ideia de democracia parece algo que dá trabalho. E ela dá mesmo. E democracia não é a ausência de ordem, é a ausência de opressão. Quando da Constituição de 1988, nós estávamos saindo de um período ditatorial de 20 anos. É necessário agora, depois de quase 30 anos, numa democracia estável, que a gente seja capaz de fazer uma outra Constituinte.

Época NEGÓCIOS  A democracia no Brasil está em risco?
Cortella
  Uma democracia está sempre em risco, senão ela não seria democracia. Afinal de contas, uma ditadura demora muito para entrar em risco porque ela faz tudo em nome da força. A democracia é a capacidade de, admitindo o conflito, impedir que se chegue ao confronto. E, nesse sentido, ela sempre corre mais risco. A ditadura garante a paz dos cemitérios. A democracia garante a paz na convivência harmônica, da qual o conflito faz parte.

Época NEGÓCIOS  O senhor está otimista quanto ao futuro?
Cortella
  É um momento especial da nossa história. Nosso melhor momento pedagógico. A melhor educação moral e cívica que o país já teve. Winston Churchill, durante o ataque da resistência britânica, na Segunda Guerra, disse: “Eu tenho clareza que nós não estamos no começo do fim, nós estamos no fim do começo”. Mas eu nunca imaginei que no meu tempo de vida eu fosse enxergar o país que eu vivo fervendo num debate sobre quais são os caminhos. Há toda uma série de circunstâncias que fazem com que 2016 seja um ano difícil, de complicação econômica, de turbulência política, mas absolutamente magistral na nossa condição histórica. Eu jamais imaginei que uma nação que tem 516 anos fosse encontrar, numa democracia tão jovem, um momento tão bom de trazer à tona tudo aquilo que estava no subterrâneo. Nós estamos tomando um susto por dia. A melhor análise que eu vi foi do ministro Teori Zavascki, quando ele disse “você puxa uma pena e sai uma galinha”. E eu tenho uma alegria de viver o momento que eu estou vivendo. Eu acho que nós estamos hoje, sim, na possibilidade não de lavar a roupa suja, mas de ter a roupa limpa como nossa referência. Eu não quero a roupa suja como sendo a nossa trajetória.

Época NEGÓCIOS  Há solução para a corrupção?
Cortella
  O primeiro passo para afastar os fantasmas é acender a luz. Se acender a luz e eles estiverem ali, enfrente-os. Se eles não estiverem ali, você vai descobrir. Colocar à luz nossas mazelas é o passo mais importante para enfrentá-las. A corrupção nunca será extinta. Ela pode ser controlada, abafada, recusada, mas será sempre uma possibilidade. Agora, cuidado. Ser uma possibilidade não significa que seja uma obrigatoriedade. É possível ser uma empresa decente, um governo decente, ser um juiz, um parlamentar, um professor, um jornalista decente.

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